
Não há coisa mais irritante para os pais do que conversar com um amigo ou casal de amigos e saber, através destes, que o filho deles é aquele aluno nota 10 – logicamente que os mesmos pais se vangloriam disto –. Os pais que recebem esta informação, mentalmente confrontam com os resultados de seus próprios filhos, que na verdade são pífios. Até então não se cogitava levar o filho a ter um acompanhamento psicológico para supostamente resolver este problema. Isto mesmo, o psicanalista é a outra ponta da linha, onde estão inseridos os pais numa ponta tendo escola no meio, e que deverá resolver o problema do fracasso escolar daquela criança ou adolescente. Lógico que o caso acima é apenas ilustrativo, mas ocorre com grande freqüência. Entretanto, os pais também já haviam percebido que o fracasso escolar de seu(s) filho(s) era patente; porém, não queriam assumir que isto acontecia.
O que este livro propõe não é a solução do problema Fracasso Escolar, mas sim, entendê-lo a partir de dois questionamentos básicos, a saber: “Qual a causa do fracasso escolar?”; “Quem é o responsável pelo fracasso escolar?”. A partir destas questões agora levantadas, a autora analisa vários fatores como, por exemplo, a não integração entre pais, educadores e psicanálise para o esclarecimento da questão. Geralmente é quase um jogo de empurra, onde os pais empurram o problema para a escola e estas “encaminham” para instituições especializadas. Ou os pais empurram para o psicólogo ou psicanalista, para que estes dêem solução ao problema. No final das contas, sempre quem sai perdendo é o indivíduo. Neste ponto o livro também traz uma abordagem ousada e inovadora. Propõe não usar os modelos tradicionalistas que são generalizantes, mas a análise profunda e individual de cada caso. A autora parte de duas premissas, que são o Ineducável, isto é, há indivíduos em que a educação formal é praticamente impossível de ser aplicada; e a outra premissa é o conceito do Indecidível, baseado na teoria matemática de Kurt Gödel.
Porém, como em tudo na vida, podemos tirar exemplos de fatos já acontecidos, como o que foi lembrado no prefácio escrito por Vera Lopes Besset. Consta que Felipe da Macedônia entregou os cuidados da educação de Alexandre a Aristóteles, que teria a incumbência de transformá-lo em um filósofo. Alexandre foi um caso de fracasso escolar. A lição que tiramos disso é que não houve ensino nas bases da educação formal, que difere da transmissão de um saber. O contato com Aristóteles o fez disseminar a cultura grega pelo mundo. Alexandre não se tornou um filósofo, mas nos fez conhecer os filósofos.
[Sobre a autora]
Ruth Helena Pinto Cohen é Psicanalista. Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio. Supervisora clínica do Serviço de Psicanálise em Atenção à Infância do Hospital São Zacarias. Professora da Escola de Educação Física e Desportos e da pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenadora dos projetos Aleph, destinado à pesquisa das etiologias do fracasso escolar, e Brincante, que realiza oficinas com crianças portadoras de doenças onco-hematológicas na sala de espera dos ambulatórios do Instituto de Puericultura Mastargão Gesteira.
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